Açaí com jabá


(fotos emprestadas da web, exceto a penúltima, que é de arquivo pessoal)
A estrutura linguística acima já virou até nome de blog, mas quero falar aqui sobre sua cristalização nas memórias gustativas e não sobre sua cristalização na língua segundo Saussure. Na língua-pá a cristalização é impossível, pois, amodernado o silvícola, além da salivação, conta com a escovação nessa língua-pá flexível, se não diariamente, pelo menos vez ou outra.
O açaí in natura, o travoso em oposição (enviesada) ao azedo, e encorpado (a papa) é mais conhecido efetivamente pelos nativos da Amazônia brasileira, principalmente os ribeirinhos, que o tomam geralmente temperado com o suor do caboclo socador durante a bolinagem, feita com as mãos naquele processo rústico, ao desvestir os caroços, retirando-lhes a casca, matéria-prima irmanada à preferência dos ribeirinhos para a sustança de seus corpos massudos. Sorte deles, pois o açaí é um dos melhores anti-oxidantes de que se alimentam.
Nos grandes centros, mormente fora da região Norte, o açaí é lambido em sovertes, escavado de tigelas variadas quando nelas aconchado, ou derramado de tubos em tubos quando desempoçado de copos de vidro ou de plástico direto em goelas por ele já fissuradas, a depender do local por onde circula modernoso na era da globalização. O diferencial nesses centros é a misturança que se faz nele com amendoim, granola, pó de guaraná e mais o escambau que o valha. Daí a fama de que ele é ultra-energético. Também, transformado numa tribomba dessas só pode mesmo é deixar eletrizado quem só assim o devora tão desrespeitosamente! Mas tal aleivosia pagará pena com a perpétua ignorância, pois quem assim o viola continuará desconhecendo seu sabor autêntico.
Para o ribeirinho, ao contrário, o açaí é um conhecido e poderoso sonífero, já que, puro, tem a propriedade de baixar momentaneamente a pressão arterial, sem sacanear seu bebedor ou seu papador impingindo-lhe algum risco à vida. Às vezes reduz tão rapidamente as batidas do coração que direciona logo o caboclo direto ao estágio 2 de seu inocente soninho. Motivo este que faz perene, na cultura ribeirinha, o nanar vespertino, o sagrado cochilo à tarde (ou logo após a degustação do vinho grosso, se tomado em outro horário fora do almoço), impingindo, então, aos nativos injustamente a fama de dorminhocos, adjetivo traduzido erroneamente, pelos intolerantes, como preguiçosos.
Poderia terminar esta crônica por aqui mesmo, brincalhando que, com parte da estrutura linguística do título, pretendia apenas trapacear o leitor, dizendo que Açaí ‘com jabá’ era apenas mais um título estilisticamente fraudulento, mas não sou escritora desse naipe. Por enquanto. Prometo que logo iremos jabar, por ora vou evocar o tucano para articulá-lo ao açaí, tema no pódio mais alto do bendito sintagma nominal.
Enquanto o caboclo bem alimentado em tese é um mamífero robusto e sensualmente beiçudo, o tucano é uma ave longilínea e quase metademente bicuda, que tem o paladar mais sensível ainda ao açaí que o caboclo. A afinidade é tanta que, acreditam os ribeirinhos, se ele for morto na época e em ambiente de fartura do açaí, ao depená-lo, poderá se perceber um azulado mais intenso em sua pele, tão profundo é seu apego à suculenta frutinha, que ela retribui a preferência com um metabolismo especial, azulando bem mais a tonalidade da derme e epiderme tucâneas.
O caboclo não fica azulado por alimentar-se frequentemente dessa gostosura. Entanto, os que, durante a vida, tucaneiam imitando imperfeitamente a ave bicuda, roendo os caroços amaciados do açaí que passou pela tradicional fervura, ganham um arroxeado constante e apenas nos lábios. Já os açaiólatras que costumam chupar boa porção de laranjas, antes ou após a bebedeira, têm a tendência a desenvolver lábios cor de vinho. Ficam bem bonitos, pois, como já acusado acima, em geral os caboclos e as caboclas têm naturalmente lábios angelinajolienianos.
Quem costuma tomar açaí azedo regularmente pode até obter o mesmo efeito labial, com o sangue vitaminado, pois é o componente cítrico acoplado ao açaí que permite a absorção do ferro pelo organismo animal, o que de outro modo seria mais difícil.
Tomado o açaí um dia antes de se fazer exame de raios X, é normal os pulmões aparecerem bastante escuros nas imagens, como se eles estivessem doentes, tão forte é a pigmentação nos órgãos, mas depois ela vai se diluindo. Daí a recomendação de não se tomar açaí antes desse tipo de exame.
Jabemos agora, mesmo que depressamente. Apelidar o jabá de charque é uma indecência linguística na cultura ribeirinha e vizinhança, coisa pra gente insensível, sem o mínimo apreço pelo linguagismo local, pura pavulagem.
O jabá solitário, cozinhado integral, tem gosto de borracha salgada. Temperado com pimentão, cebola, pimenta-de-cheiro e demais condimentos é até apreciável. Escaldado e frito apenas em óleo, ou assado, acompanhando um ensopado pirão de açaí, é iguaria ultrafina ao paladar caboclo, ou a qualquer paladar de bom gosto, substituindo à altura o peixe (assado ou bem tremelicado em gordura quente) ou o camarão no bafo, acompanhantes igualmente nobres do açaí. Quem já teve a oportunidade de comeber a dupla memorizou pro resto da vida o quanto esse prato é tipicantemente saboroso, e é ‘bem assim mesmo’, para usar uma expressão familiar das gurias gaúchas.
Açaí com jabá é considerado um verdadeiro orgasmo gastronômico da boia amazônica!
by Janete Santos

Comentários

Postagens mais visitadas